Luz... luz... mais luz...

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sábado, 3 de maio de 2014

Família de incríveis pessoas normais




O Senhor Incrível protagoniza esta animação relativamente antiga (2004).
No início, mostram -se entrevistas de alguns super heróis em seu momento de maior aceitação social.
É impossível não enxergar em seus discursos um certo pedantismo, mas é claro que ele se justifica quando pensamos que se trata de um grupo de jovens no auge de suas carreiras.
O filme mostra que aquele que tem muita vontade de mudar o mundo, é, acima de tudo, um sonhador. Mostra também que seus sonhos estão acima dos sonhos alheios. É um " saber a verdade" que somente o tempo pode desconstruir.
E o tempo faz sua parte.
E é exatamente no momento do casamento do Senhor Incrível Com a Mulher Elástico que o futuro dos mesmos será escrito.
Enquanto segue para o casamento, o Senhor Incrível, que monitora a comunicação policial, se dá conta de que está havendo uma perseguição policial. Resolve intervir na situação, pois há tempo. No caminho, é interceptado por uma senhora que pede ajuda para salvar um gatinho.
Deve-se considerar que não havia necessidade de arrancar a árvore do chão para salvar o gatinho, mas o Senhor Incrível não faz esta consideração.
Enquanto isto a perseguição policial segue para a rua onde ele está. Ele salva o gato e usa a árvore para conter os bandidos. Não fosse uma animação, seria uma cena extremamente violenta e desnecessária. Ele poderia ter agido de forma menos violenta, mas, como foi dito acima, é um jovem herói, cuja experiência ainda necessita de lapidação.
Em nova rota contra o crime, ele encontra sua noiva, a Mulher Elástico, também tentando salvar o mundo, assim como o Gelado, um dos convidados.
Eles estão indo ao casamento.
Todos jovens, o que é muito legal, usando seu tempo até o limite em prol de seus ideais, adiando sua vida real para combater o crime.
Em seguida o Senhor Incrível impede o suicídio do Senhor Tosco, que pula de um prédio.
Sua ação se faz em prol da vida, ele age de forma quase instintiva, mas é uma interferência na vida outro, que pode ter analisado muito bem a atitude que cometia.
A interferência na vida do outro mexe com a sua própria, já que eles caem em um andar onde ocorria um roubo Praticado por Bomb Voyage.
É neste momento que também a história de Buchecha, ou Gurincrível, começa a ser escrita, seu futuro arquirrival.
Ao tentar salvá-lo, uma bomba cai na linha do Metrô, num trecho de viaduto.
O Senhor incrível se põe na frente do trem que chega pra tragédia certa.
A parada abrupta da máquina faz com que os passageiros se machuquem, tornando-se vítimas da tentativa de salvamento do Senhor Incrível, assim como suas várias tentativas anteriores de combate ao crime geraram consequências.
Esta sequência de eventos causa desconforto na população, que passa a repudiar os atos praticados pelos heróis.
Uma onda de processos faz com que os heróis sejam obrigados a deixar de agir em sociedade.
Uma leitura mais atenta nos indica que a tentativa dos jovens de mudar o mundo é vista, socialmente, como motivo de repúdio, como algo que deve ser banido da sociedade.
Os jovens, com seus super poderes, com sua vontade de mudar as coisas, agem de de forma tempestiva. É característico de sua personalidade que se forma e que, acima de tudo, se transforma.
Mas ele, o jovem, vive em sociedade.
E a sociedade possui um "status quo", uma logística de ação implantada pelo tempo que tenta conter seus avanços.
A sociedade não age assim de forma voluntária. Tirando umas poucas pessoas, talvez sequer tenha consciência de que oprime a atitude dos heróis.
De forma tão tempestiva quanto a dos heróis, a sociedade tenta conter suas atitudes com a mesma violência de quem tenta tirar o gatinho de uma árvore arrancando-a do chão.
Neste conflito de gerações, normalmente, quem perde é o jovem.
No filme, os heróis desistem de suas proezas. Deixam de ter uma "identidade secreta" e passam a viver "anonimamente".
Note-se que perder a identidade e viver de forma anônima é uma imposição da sociedade ao jovem. Aprender a atuar de acordo com a "praxis" vigente.
É um grande momento no filme, porque transforma, por exemplo, o Senhor Incrível no senhor Beto Pera... a Mulher Elástica na Senhor Helena... e toda a geração seguinte em um grupo de pessoas medianas.
Os filhos da família Pera tem conflitos sociais porque seus pais tentam conter seus superpoderes.
Eles agem assim porque foram ensinados que agir de uma forma socialmente aceita é a atitude correta.
O Senhor Incrível, agora Roberto Pera, vive infeliz, trabalhando em uma Companhia de Seguros que não tem a menor pretensão de cuidar de seus segurados.
Não deve ser fácil para quem queria proteger o mundo.
A Senhora Helena, antes Mulher Elástica, tenta conter seus poderes, assim como os da própria família. Diz ela que "agora o mundo só quer que a gente se ajuste".
Flecha é hiperativo e sua irmã se apaga socialmente. Leva pra vida real seu poder.
Beto Pera realmente tenta se condicionar, agir de acordo com as regras sociais, mas é mais difícil do que parece. O carro apertado, o cubículo onde trabalha, o assédio que sofre de seu patrão, o Senhor Lima, não o ajudam muito a se "ajustar".
Em uma discussão a respeito dos problemas familiares, Beto diz a Helena: "Sempre inventam um jeito de incentivar a mediocridade, mas se alguém é mesmo especial..."
os filhos presenciam a "discussãozinha".
Eles dizem aos filhos que está tudo bem.
Será que está tudo bem mesmo?
Considerem que a discussão se faz na madrugada do Dia do Boliche. Ele e Gelado, ou Lúcio, saem pra salvar vidas. Não seria descabido pensar que se trata de uma metáfora para o dia da fuga através do "Happy Hour" dos socialmente responsáveis.
Bem, falo disto em outro post.
O Senhor Lima é um patrão extremamente preocupado com o bem estar de sua empresa.
Em suas próprias palavras, "uma empresa é como um relógio enorme... só funciona se todas as pequenas engrenagens se encaixam".
Beto não é uma pequena engrenagem e, por isto, não se encaixa no sistema.
Por não se encaixar no sistema, sofre Assédio Moral.
Até o dia em que ameaça Beto de demissão. Neste dia...
É claro que não contarei todo o filme, mas esta parte eu não podia deixar de comentar.
Há muitas variáveis moldando nossas vidas.
E alguns problemas, pelos quais passamos, não acontecem exatamente por nossa culpa, pois temos um grupo social atuando em nosso redor.
Sofremos influências deste grupo social e influímos no mesmo, moldando a vida de outras pessoas.
Este post não pretende concluir nada. Pretende só fazer pensar a respeito.
Afinal, quais as influências que queremos ter? Quando exatamente devemos nos rebelar diante de regras inconsistentes? Ou não devemos fazer nada, PORQUE AS COISAS SEMPRE FORAM ASSIM?
Se um desenho animado pretendeu trazer à tona este tipo de discussão, talvez devamos pensar a respeito.
Luz... luz... mais luz...
Contra condutas violentas e em favor de uma Cultura de Paz através do Conhecimento

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